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Daninhos
Não me pergunte se ontem à noite estava em casa dormindo.
Não interrogue as pessoas, para saber se aquelas pernas no bar são minhas.
Não me pergunte de onde veio esta camiseta patchuli.
Não me pergunte que vozes de mulheres escutava ao fundo, quando atendi o celular.
Tão pouco siga meus rastros, pois descer até esse inferno, meu bem… Será teu descaminho.
O que trago comigo, são bafos amargos dos piores vinhos, e beijos agora, seriam beijos daninhos.
Além disso, meu bem, todas as minhas respostas serão balas para seu coração de vidro.
Então, deixe-me livre esta noite e darei todos os beijos que te devo… e direi coisas, das coisas que nunca me atrevo. Deixe-me livre esta noite, que cantarei uma Bossa Nova e não vou te deixarei nem um minuto só…
Se me deixar levar a vida, como o mar leva as ondas até as rochas.
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O Perdedor
– Eu quero mesmo é vencer na vida.! Expressão esta, facilmente reverberada nos corações das pessoas de todas as partes do mundo. E qualquer que seja os pormenores engendrados à partir desta expressão, – ter um excelente emprego e ser talentoso, ganhar dinheiro, formar uma família com a alma gêmea –, o sentimento é único. E então, uma verdadeira manada de seres incipientes parte para a vida, com a determinação insuperável de um atleta olímpico, perseverante na busca por resultados.
Mas na intenção alcançar esses objetivos, o que deveria ser uma busca pessoal e de autodescobrimento, acaba se transformando em uma patologia social, se transformando na mais covarde e desenfreada competição. Solução de quem não quer perder o castelo de areia construído e não deixar que alguém possa desfrutar das mesmas abastanças.
Não mais pude simplesmente ir ao cinema, sem ter que rotular a produção e as atuações do elenco e classificar a película em gênero, grau e satisfação. Nunca mais pude jogar boliche, sem que tenha que contar os pontos no placar, para ver em qual posição me encaixava e qual desculpa usar em caso de “derrota”. Nunca mais pude assistir a uma partida de futebol, sem que tivesse que ostentar a quantidade de títulos do meu time. Nunca mais pude percorrer trilhas naturais sem que tivesse que pular do ponto mais alto em águas geladas para provar minha capacidade de superação perante os amigos. Amigos estes, que estavam se transformando cada vez mais em adversários. Nisso, criamos um hall enorme de desculpas, dissimulações, agressões e traições. E no final das contas… “só nos sobrou do amor, a falta que ficou”, como diria o poeta russo…
Creio que muitas coisas podem ser diferentes e, por muitas vezes, eu me aborreço profundamente com a inveja, competição, intolerância, revide, desafetos e egoísmo que tanto nos empobrece. Fazendo-nos presas inocentes da mesquinharia, da arrogância, de a tudo e a todos determinar.
Nesse momento, aporto em mim e aponto para a fé, de seguir um caminho completamente alforriado das amarras das disputas. Longe, muito longe do embate. E isso me gera uma sensação inexplicável de felicidade e um sentimento de invencibilidade, daquele, que acreditava obter isso ploriferando a rixa em tudo em que me metia. Veja só, foi necessário que perdesse para conquistar, para garantir a vitória sobre mim. Perder para vencer. Uma maneira de se posicionar perante a vida, sem deixar que as pressões e as exigências me dominem.
Isso me conduz, no meu ritmo, a uma vida com mais significado, baseada nos sentimentos do coração. Passível de realizar meus sonhos, estimular as outras pessoas a também realizarem os seus e construir um mundo mais lícito. Hoje sou motivado pela alma, por aquilo que me apego pelo prazeroso sentimento de sentir, prazer. E isso já me basta.
Revisitando esse mesmo sentimento, a banda Los Hermanos, nos brinda com essa música. Mas dessa vez, com o título oposto de “O Vencedor“. O que não deixa de ser uma verdade.
Olha lá quem vem do lado oposto
e vem sem gosto de viver
Olha lá que os bravos são escravos
sãos e salvos de sofrer
Olha lá quem acha que perder
é ser menor na vida
Olha lá quem sempre quer vitória
e perde a glória de chorar
Eu que já não quero mais ser um vencedor,
levo a vida devagar pra não faltar amor
Olha você e diz que não
vive a esconder o coração
Não faz isso, amigo
Já se sabe que você
só procura abrigo
mas não deixa ninguém ver
Por que será?
Eu que já não sou assim
muito de ganhar
junto às mãos ao meu redor
Faço o melhor que sou capaz
só pra viver em paz.
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Fazer um filme é fácil
Fazer um filme é fácil. Nada de viagens espaciais, policiais corruptos ou espíritos inconformados com a morte. Apenas um encontro romântico. Apenas um casal ligeiramente incompatível, cujas vidas diárias de pequenas lutas, façam reparar um no outro.
O ator ensaia um sorriso cínico, quase tolo. Parado em um ponto de ônibus, vai por à prova ligeiro sorriso que o destaque entre rostos e retratos. Ele tem que acreditar firmemente que dessa vez, a linda moça do fundo do ônibus, irá reparar nele. Acreditar que tem a maior sorte do mundo em ter uma paixão assim tão previsível. Paixão de pegar o mesmo ônibus todos os dias, no mesmo horário e de se sentar lá no fundo, sempre na janela da direita. E se sentir completamente arrasado caso a pobre moça resolva mudar de trajeto, acordar mais tarde, comprar um carro ou ler um livro.
Pedirei à atriz que interprete uma pequena operária. Sem nada de extraordinário no caminho que fará diariamente da casa para o trabalho. Que se embebede da rotina maçante e embriague a alma, para entorpecer-se nos cotidiano das pessoas apressadas que insistem em ganhar a vida em uma metrópole sufocante. Mas mesmo assim, infantilmente, se sinta impelida a disputar os assentos perto das janelas do ônibus, em uma tentativa desesperada de se deparar com um cavalo branco à serviço de seu príncipe.
Pela janela do ônibus, verá nas ruas, rostos desconhecidos que passam numa velocidade suficiente para que se mantenham no anonimato. Ora pinturas impressionistas, ora estátuas inertes e sem vida, como ela lá, sentada naquele ônibus esbanjando a determinação de um bicho-preguiça. Alguns cidadãos terão suas identidades reveladas em breves momentos quando o ônibus parar em um dos diversos pontos do trajeto. Ela então, irá observar seus trejeitos, suas expressões soníferas que faz bocejar um pouco. Rir por dentro dos topetes e penteados alheios, mas nada além disso.
A cena será ensaiada exaustivamente durante semanas, para evidenciar a mesmice do cotidiano. Até que um dia, algo inusitado finalmente aconteça: no trajeto do ônibus, mais precisamente na décima segunda parada, o rapaz de aproximadamente vinte e poucos anos sorrirá para ela. Não um sorriso forçado, manjado, safado; daqueles de álbum de casamento. Mas um singelo, sincero, honesto. Que dure o tempo suficiente para se tornar marcante.
No início, a atriz se sentirá assustada. Afinal, com tantos tarados à solta, uma leve correspondência pode significar seu corpo inerte estuprado em uma vala qualquer. Mas o pobre coitado simplesmente não fará nada além daquilo, à partir daquele dia. Faça chuva faça sol, a pobre operária terá a certeza de encontrá-lo parado no ponto de ônibus tal qual um manequim em vitrine, com aquele sorriso cínico no canto da boca. Até que ela comece a lhe imaginar ao lado, de mãos dadas, andando pelas ruas da cidade com, agora seu, leve sorriso cínico no canto da boca! A mostrar para todos os transeuntes que finalmente descolou um namorado decente, um companheiro.
Esses dias então, ganharão um colorido novo, só pela simples presença de um admirador misterioso. À partir de então, o sorriso cínico será um segredo bem guardado no seu coração, tal qual uma mulher carente que faz questão de esconder do marido, o consolo dentro da caixa de sapatos. Ele é uma espécie de amuleto, que pode sacar do bolso em dias cinzentos, o qual basta evocá-lo e receber dele mais de mil pontos em meus atributos de força, vitalidade e paciência. Fazer um filme é fácil.
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De onde vem a raiva?
Hoje senti raiva, muita raiva. Não consegui deixar de sentir pena de mim, do meu descontrole, da minha incapacidade de distinguir em mim o que é um sentimento que vaga, da pessoa que sou. E isso é muito difícil de entender, muito mais difícil ainda lidar. Acredito que algumas vidas se arruínam desta forma: os indivíduos não conseguem se separar daqueles sentimentos transeuntes, e cometem sem se dar conta, algumas injustiças.
Eu poderia até chegar as estas vias de fato, se já não soubesse de antemão que aquilo que sentia, não me pertencia. Embora não tenha me impedido de esmurrar a parede e correr como louco nas primeiras horas da manhã. Essas percepções iniciais, seguidas dessa reação alucinada, evitaram que esse sentimento se agravasse e fosse posto para fora como um aborto espontâneo. Ou pior, que fosse suprimido e viesse a transformar o meu corpo em moradia cancerígena de uma personalidade dissimulada. Passada a intempérie, estava eu sozinho com um vácuo no coração a ser preenchido por qualquer outro sentimento.
Sentimentos são bombas de reações em cadeia; são energias vampiras, que, se convidadas a entrar, somarão às outras de mesma carga emocional. E como todo vampiro, se esconde na forma de névoas escuras, sombras em nosso inconsciente esperando a oportunidade de voltarem à tona para desencadearem um turbilhão de sensações. Se fosse estúpido, assim faria: contaminaria outras pessoas e abandonaria a chance de transmutar aquilo que sentia. Ainda me encontro muito distante disso, mas já dei um importante primeiro passo.
Deixando as metáforas de lado, ponho-me a pensar em culpados, vacilos e nas causas das situações. Não como auto-compaixão e sim como uma indagação científica-filosófica. Talvez esse olhar mais humano, me conduza em meus primeiros e tímidos passos à santidade, afinal, a inteligência é à base da espiritualidade.
Quando estou aqui, decompondo em linhas minha tragédia pessoal, seja na foram de depoimentos, ficção ou floreiros romanceados, consigo expulsar de mim meus demônios, meu lado pouco domado – raiva, medo, angústia inveja, retração, vingança – e me percebo aprendendo sobre isso, sinto que sou dotado daquela mônada necessária à concepção dos sábios. Quando, por outro lado, vejo que a energia apenas foi arrastada, mas não transmutada. Mudei o meio, mas permaneci com a mensagem, aí me sinto fraco e vazio. Pequeno. Talvez eu deva lidar também com essa posição de humildade: lidar com minhas limitações, aceitar escolhas alheias, talvez seja este o meu caminho da ascese.
Sentimentos são naturais, mesmo os mais abomináveis. Afinal, somos humanos. Transformá-los exige que se transforme o modo como eles são manifestados. A raiva traduzida na forma de livros, gritos, choros, risos, passeatas, músculos ou suor, aos poucos deixa de ser raiva. Transforma em algo realmente seu. Pessoal, intransferível e domesticado. Pronto e reciclado, para ter servir como uma tela serve a um pintor.
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Pura Como Aquele Beijo
Às vezes gasta-se milhares de dólares em campanhas de marketing cujo resultado é algo muito aquém do investimento. Contrata-se atores e atrizes do momento, contrata-se cenógrafos hollyodianos para reproduzirem verdadeiras megalópolis de cartolina que serão devastadas por monstros feitos em estações de computação gráfica. Tudo isso para trinta segundos de exposição para uma certa marca de sabão em pó…
Ei que de tempos em tempo, surge aquele comercial simples, modesto e não menos eficiente. Na minha modesta opinião, o Mercado Livre fez o simples. Um rapaz que não havia nada de Brad Pitty, resolve colocar à venda seu beijo. Um selinho, na verdade, que nada tem a ver com os chupões dados na novela das oito. Então uma garota, que não havia nada de Jennifer Aniston, resolve comprar o produto. Em todo o comercial, só existe uma única fala: “vim entregar o pedido”. Então produto é entregue em uma troca de lábios que não duram mais que a velocidade de um “click”. E todo esse momento, sendo embalado por um jingle singelo. Cuja letra casa divinamente com a situação:
someone is there, waiting for my song
i´m only looking for someone who sings along
when all my dreams, finally reach yours
we will uprise and maybe find our true love
we will uprise and maybe find our true love
Esse comercial fez-me lembrar da “Última Crônica” de Fernando Sabino publicada no livro “A Companheira de Viagem” (1965), que ao tentar finalizar seu livro com uma crônica matadora, acaba por render-se a descrever emocionadamente um momento cotidiano dentro de um botequim da Gávea. A crônica termina com a frase: “(…) pura como esse sorriso.” E é exatamente essa mesma facilidade em descrever o coloquial que a propaganda revisitou esse sentimento. Sentimento puro como aquele beijo.
youtube=http://www.youtube.com/watch?v=sG7XUlA2Lhc
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Oração De Quem Se Foi
Se um dia eu estiver “cheio da vida”, com vontade de sumir, de morrer,
insatisfeito comigo em com o mundo em torno de mim…
— Pergunta-me, apenas, se quero trocar a luz pelas trevas…
— Pergunta-me, se quero trocar a fartura da mesa posta, pelos restos que tantos vem buscar no lixo…
— Pergunta-me, se eu quero trocar meus pés por uma cadeira de rodas.
— Pergunta-me se quero trocar o mundo maravilhoso dos sons, pelo silêncio dos que nada ouvem…
— Pergunta-me, se quero trocar o jornal que leio e depois jogo no lixo, pela miséria dos que vão buscá-lo para fazer dele seu cobertor…
— Pergunta-me, se quero trocar minha saúde, pelas doenças incuráveis de tanta gente…
— Pergunta-me, também, até quando não reconhecerei as Tuas bênçãos, a fim de fazer minha vida um hino de louvor e gratidão e dizer, todos os dias, do fundo de mim: — Obrigado, Senhor!
Meu amigo, admirado e amado pai: mandando notícias do além túmulo. E mesmo separado dos seus entes queridos pelos caminhos da vida, ainda mantém sua integridade em educar seus filhos. Foi um prazer tê-lo como amigo e tutor, muito obrigado.
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