Femme Noir

17Jan07

São Paulo, terminal Tietê, onze horas da noite. Chuva. Sabendo que toda história de amor deve acontecer em função de um ápice dramático, o clímax, fiz exaustivas correções que não deixavam dúvidas se tratar de um roteiro mais que perfeito. Decorei todos os scripts, escolhi o figurino com atenção, abrangendo uma infinidade de possibilidades. Estaria bem posto em uma piscina ou em eventos formais. Tudo isso para que, como em um filme noir, assim que desembarcasse na rodoviária me entregaria ao voluptuoso beijo roubado da atriz principal. Não deixando dúvidas de minha intenção em iniciar ali, uma linda história de amor. Luz, câmera, ação!

Já em terra firme, não reconheci na multidão a pessoa de minha paixão, mesmo que os minutos denunciassem atraso angustiante, tentava inutilmente adivinhar em qual cardeal ela poderia surgir. O frio, a chuva e a agonia, substituíam o solavanco da longa viagem. Minhas pernas, que há pouco adormeceram, se recusavam em latejos a nova posição erguida. A fala que exaustivamente ensaiei, já não cabia mais naquele momento… Pois, contrariando o roteiro, a atriz troca a cena do beijo por um abraço sem jeito. O roteiro fora criminosamente abortado.

No taxi, procurei iniciar rapidamente a conversa. Ela, no entanto, parecia que não decorou sua fala. Dizia coisas que não estavam escritas. Irritei-me e ela não fez a mínima idéia do que a está deixando tão estressado. A já amaldiçoada canastrona, ria copiosamente, quando não era para rir, e se perdia em elucubrações quando sua atenção deveria estar direcionada aos meus gestos ensaiados. Assim de repente, ela fala de seu ex-namorado. Corta, corta! O vilão nem está nessa história!

A próxima cena sugeriria um tórrido momento de intimidade, dois corpos se entregando ao gozo, entre gritos e sussurros à meia-luz, onde a persiana filtrava o luar, denunciando nossas silhuetas em comunhão. Mas a atriz sugere o sofá da sala. Como tentativa frustrada, sugeri “in vino veritas”, ela, apaga a luz que quero dormir.

E assim encerrou uma relação onde não deveria haver falas decoradas nem cenas pré-concebidas. Não faltaram momentos nem oportunidades. Porém faltou o ingrediente principal, que sem ele, nenhum romance se inicia: amor. Mas minha vaidade de diretor não percebeu por que estava ocupado demais com interpretações e com final feliz. Talvez acontecesse exatamente como no script, desde que aprendesse a trabalhar em equipe.

Sem nenhuma dúvida, há leis naturais e imutáveis que não se derrogam segundo o capricho de cada um; todas as circunstâncias da vida, acontecem segundo uma razão, segundo um porque. Em nossas vidas estamos sempre no papel do ator principal, e nas situações mais importantes, como diretores. Inutilmente programar os acontecimentos, direcionar os fatos ao nosso favor. O problema reside justamente aí. Pedimos sempre o que queremos, o que é de nosso contento, sempre ultrapassando o limite do necessário na satisfação das nossas vontades.

Close up, em uma foto já desgastada pelo tempo, finalizando em fade-out.